terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Educação e Tecnologia nos Dias de Hoje

É mais do que sabido que a educação e formação das crianças, desde o nascimento, é de total responsabilidade dos pais e/ou responsáveis e professores.

Vivemos num mundo repleto de aparatos tecnológicos como tablets, celulares, computadores e jogos virtuais com definições riquíssimas e características extremamente estimulantes.
Será que toda essa tecnologia é 100% benéfica?

O famoso físico teórico britânico Stephen Hawking, um dos mais consagrados cientistas da atualidade, afirmou recentemente que o desenvolvimento avassalador nos últimos anos da ciência e tecnologia levará a humanidade à extinção em mil anos, no máximo.
Outro dia presenciei um bebê passando o dedo por uma revista esperando que a página mudasse como um tablete.

É muito fácil distrair as crianças e adolescentes com os inúmeros jogos virtuais que se têm à disposição, que passam a preencher o tempo ocioso e até mesmo ocupar o precioso tempo que deveria ser usado para o estudo.
Percebemos que as crianças não sabem brincar ou se comunicar sem seus celulares, tablets e conexão com a internet.  Enquanto estão com seus aparatos tecnológicos, não observam o mundo ao seu redor e passam a viver uma realidade longínqua formada por personagens virtuais em situações fantasiosas. Tudo muito interessante e atraente.

Dificilmente uma outra atividade como andar no parque, ler livros, montar quebra-cabeças, aprender a tocar um instrumento musical e até mesmo jogos de tabuleiro, vai atrair a atenção dessa geração.
Até que ponto todo esse acesso à tecnologia vai ajudar a transformar nossos filhos em seres humanos melhores, completos e felizes?

A internet oferece muita informação, porém, toda essa informação não representa aquisição de conhecimento.
Em conversas com os professores da Academia, nos surpreende observar o comportamento tanto de bebês quanto de crianças e adolescentes, a chamada “geração Z”, com seus aparatos tecnológicos e principalmente a influência que causam neles.

O ser humano é naturalmente caracterizado por uma evolução biológica lenta e não podemos mudar esse fato. As crianças e adolescentes não têm mais muita paciência para participar de um projeto onde devam se dedicar, se esforçar para obter um resultado final satisfatório, dentro de um determinado prazo. Essa falta de paciência pode torná-los imediatistas, desinteressados e desestimulados, apresentando como consequências, dificuldades para enfrentar desafios e vencer etapas que exijam esforços.
Para evitar esse tipo de problemas devemos oferecer novas experiências por meio de atividades específicas tais como: música, que é a mais rica forma de expressão artística, dança, esportes, atividades manuais, atividades que obriguem o sentido da audição a trabalhar mais do que o sentido da visão, atividades que proporcionem contato e interações com outras pessoas sem uso de aparatos tecnológicos e as que estimulam a imaginação. Esses são recursos importantíssimos para que se desenvolva as habilidades naturais dos seres humanos em formação.

É de nossa total responsabilidade, já que somos parte indispensável na formação das crianças, tomarmos consciência de toda essa problemática e agir veementemente no sentido de que o desenvolvimento da essência espiritual e da sensibilidade inatas continuem na vida delas, para que se tornem seres humanos completos, realizados, felizes, capazes e que atuem na sociedade de forma construtiva e positiva.
Nós da In Concert Academia de Música continuaremos fazendo a nossa parte, cultivando o relacionamento interpessoal, a expressão artística, a comunicação, a satisfação pessoal e o desenvolvimento emocional.

Sabemos que é um trabalho de formiguinhas, mas temos convicção que, se plantarmos a boa semente, na hora certa haverá de germinar e frutificar de forma a nos orgulhar.
Com a conscientização e ajuda dos pais/responsáveis e nossa dedicação, tenho certeza que valerá a pena.
 
- Stela Márcia
 

 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Hino a São João Batista

Consta que foi Guido D'Arezzo, célebre músico do século XI, quem deu nomes às diferentes alturas musicais, usando a primeira sílaba de cada verso do seguinte hino a São João Batista.

Ut - Ré - Mi - Fá - Sol - Lá - Sa
 
 
Utqueaut laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labii reatum
Sancte Ioannes
 
Que quer dizer:
 
Purificai bem-aventurado João, os nossos lábios polutos, para podermos cantar dignamente as maravilhas que o Senhor realizou em ti. Dos altos céus vem um mensageiro anunciar a teu pai, que serias um varão insigne e a glória que terias.
 
Sendo a sílaba UT de difícil pronuncia, foi substituída por Dó de Dominum e o Sá pelas iniciais de Sancte Ioannes (SI).
 
 
-Prof.ª STELA MÁRCIA


terça-feira, 5 de julho de 2016

Bateria, Bateristas e Brasilidades (nº4)


Olá pessoal... Chegamos à 4ª edição de matérias sobre bateria e música brasileira onde busco trazer uma breve análise de alguns importantes discos da nossa música, destacando nossos incríveis bateristas, e é claro, gerando um material legal para você estudar através de transcrições, discografia e etc.

Aproveito o álbum escolhido este mês para homenagear um dos lugares culturalmente mais belos e ricos do nosso país: a Bahia, já que vamos falar de “Rosa Passos Canta Caymmi” (Lumiar Discos, 2000). A cantora, compositora e violonista Rosa Passos é, sem dúvidas, uma das maiores divulgadoras da música brasileira dos últimos anos no Brasil e exterior. Tento conquistado plateias na Europa, Ásia e Estados Unidos, a baiana já gravou discos em parceria com Ron Carter, apresentou uma série de shows em casas como “Blue Note” (em New York) e realizou oficinas de música na conceituada “Berklee College Of Music” em Boston, onde foi homenageada. No Brasil, a cantora se apresenta frequentemente em diversos festivais para o grande público, sempre acompanhada de grandes músicos e belos arranjos que destacam ainda mais a grandeza desta artista que pulsa música brasileira.

 
 

Enriquecendo as camadas rítmicas deste trabalho, temos na bateria Erivelton Silva. Filho de baterista, o brasiliense mudou-se para o Rio de Janeiro em 2000 devido as oportunidades de trabalhos, iniciando uma nova fase em sua carreira musical. Requisitado para shows e gravações passou a trabalhar com artistas como João Bosco, Chico Buarque, João Donato, Ivan Lins, Ed Motta, Milton Nascimento entre outros. Além disso, por suas peculiaridades como baterista, sobretudo tocando samba, o músico também tem realizado workshops em diversas universidades nos EUA.

 
 
 
Agora, vamos mergulhar no trabalho que Erivelton Silva realizou neste disco através de algumas transcrições, comentários, e claro, a escuta (parte mais importante).

Começaremos por “Vatapá”, sexta faixa do disco e ponto onde busquei trazer maiores detalhes. Abaixo temos a introdução, com essa levada de Samba-Funk, onde o baterista exibe seu swing e domínio do instrumento.

 
Agora, temos o mesmo trecho, mas com o detalhe das cúpulas que dispensei acima para uma primeira leitura. Lembrando que, afim de tornar a leitura mais limpa, também não foram inseridas algumas ghost notes. 

 
 
 Num trecho um pouco mais à frente, encontramos uma variação na condução, cheia de malícia e que dá um efeito bastante curioso e interessante na música. Veja:
 

 
 Repare na parte destacada acima. Se você tocar somente ela (isoladamente), terá este groove:


 
 Ou seja, com esse tipo de ideia (deslocamento), você cria ilusões rítmicas capazes de quebrar o padrão de condução do qual vinha utilizando e de trazer a atenção do ouvinte (ou dos outros músicos) de volta. Claro que isso exige uma boa dose de bom senso, bom gosto e experiência, como podemos ver e ouvir neste caso com Erivelton Silva.

 Seguindo com “Você Já Foi à Bahia?”, faixa que abre o disco, temos um trecho onde a bateria faz uma condução um pouco diferente, voltado para o “Latin”. Entre as variações desse trecho, destaquei um para padronizarmos e possibilitar melhor entendimento desta levada.
Obs: Mão direita na cúpula do ride e mão esquerda no chimbal (para destros)


 
Podemos aproveitar uma segunda possibilidade de tocar esta levada para praticá-las como exercícios de coordenação ou até independência (se quiser inverter a mão da condução)

 

 
E vamos fechar com “Samba da Minha Terra” com esse groove que caiu muito bem onde foi empregado.


 
 Vale lembrar, que além de Erivelton Silva, a cantora Rosa Passos tem sempre em seus palcos ou discos, o trabalho de outros grandes bateristas como Celso de Almeida, Edu Ribeiro, Rafael Barata entre outros.

Espero ter contribuído em algo com este material e que estejam gostando dessa série de matérias. Fiquem à vontade para enviar críticas, sugestões e perguntas. Muito obrigado e muita música à todos.
-GABRIEL MAROTTI
 
Fontes:

terça-feira, 28 de junho de 2016

Pensando sua Música

 Interpretação

 
No processo de aprendizado musical, podemos encontrar livros, métodos ou vídeos que nos ajudam com os mais diversos aspectos da música. Temos disponíveis tratados sobre harmonia, ritmo e métodos que tratam da técnica específica dos mais variados instrumentos. A maior parte do estudo de uma música se trata em aprender qual notas e quando tocar, mas depois de vencida esta etapa é deixada para o próprio estudante, às vezes, sem referências, a questão de como essa música deve soar. Chamamos este aspecto musical de interpretação.
 
            Quando executamos uma música, tomamos uma série de decisões, mesmo que inconscientes, que trarão à tona o resultado de como esta música soou. Mesmo que tecnicamente correta, uma música pode soar desinteressante devido a uma interpretação fraca ou equivocada.
 
            Nesta matéria trago um exercício que ajudará a tomar decisões conscientes e ter direcionamento para que a execução de uma música atinja o resultado esperado.
 
            Abaixo estão dois vídeos de uma mesma peça, o prelúdio da Suíte para Violoncelo nº 1 de J. S. Bach, executada por Yo-Yo Ma e Mstislav Rostropovich. Como primeira etapa do exercício sugiro que você ouça a música com atenção algumas vezes, para se acostumar com as suas partes.

Yo-Yo Ma:



 

Rostropovich:

 



            Yo-Yo Ma e Rostropovich são considerados grandes mestres em seus instrumentos. Mostraram interpretações da mesma obra musical, com as mesmas notas e usando o mesmo instrumento, sendo assim, evite julgamentos do tipo “A gravação X é melhor que a gravação Y”.
 
            A segunda etapa do exercício será procurar diferenças entre as peças, que chamaremos de contrastes. Em uma folha de papel trace uma linha vertical no meio dela e em cada coluna, coloque algum aspecto de uma das gravações e do outro lado, o seu contraste.
 
            No início podemos usar critérios mais subjetivos, como por exemplo, afirmar que uma das interpretações é mais animada que a outra, ou ainda que uma é mais clara, enquanto a outra é mais escura.
 
            O próximo passo é descobrir e explicar mais objetivamente como foram alcançados estes determinados aspectos. Se afirmamos anteriormente que uma gravação é mais animada, precisamos pensar no que foi feito para que isto acontecesse. Talvez ele tenha deixado a música mais animada porque a executou com uma dinâmica mais forte do que a outra gravação. A interpretação mais clara pode ter sido resultado de uma execução com andamento mais rápido, enquanto a outra, mais escura, possui andamento mais lento.
 
            Podemos executar uma música com uma rítmica mais livre (rubato) ou mais regular. Podemos executar com todas as notas soando por toda a sua duração (legato) ou que todas elas sejam mais curtas, ou “secas” (staccato). Podemos fazer com que as variações nas dinâmicas (forte e piano) sejam mais ou menos intensas, ou ainda com que estas variações sejam graduais ou repentinas.
 
            Depois de identificados diversos aspectos e seus contrastes nas gravações e de pensarmos em como os músicos fizeram para alcançar estas características, chegamos na terceira e última etapa do exercício, que é aplicar estes contrastes em sua música e nos seus estudos.
 
            O material no qual vai aplicar pode ser, de início, algum exercício que você trabalha frequentemente como alguma escala ou sequência de arpejos. Além de tocar as notas certas, insira elementos retirados da sua pesquisa nas gravações, como as dinâmicas e a duração das notas, pense em quais momentos estes aspectos serão aplicados e em quais eles serão contrastados. Depois dos exercícios, aplique em músicas completas, fazendo contraste entre as diferentes partes delas. Isso fará com que suas interpretações sejam mais conscientes e diferentes das outras que já existem, também possibilitará que você identifique porque gosta mais de determinada intepretação que de outra, podendo aplicar esses aspectos percebidos em sua própria música ou ainda, porque não gosta de alguma interpretação, podendo evitar tais elementos na sua interpretação.
 
- FELIPE MATULA
 
 
 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A Viola Caipira

A Viola Caipira é derivada originalmente das Violas Portuguesas, que chegaram ao Brasil através dos Jesuítas portugueses que as utilizavam na catequese dos indígenas. Logo, passou a ser construída pelos caboclos (filhos de brancos com índios), utilizando madeiras locais dando origem assim, à viola que conhecemos hoje.
 
 
 
 
Também conhecida como: Viola Cabocla, Viola Brasileira e Viola Sertaneja, a viola tomou conta de várias partes do Brasil, tornando-se um símbolo da música de raiz e folclórica brasileira. 
Possui cinco pares de cordas e conta com uma variedade de afinações onde as principais são: Rio Abaixo, Boiadeira, Natural, Cebolão em Ré ou Mi, entre outras. Estas últimas chamadas assim pois, segundo a lenda, faziam as mulheres chorarem como se estivessem cortando cebola.
 
 
 
 
As composições estão ligadas ao folclore e ao estilo de vida do povo do campo, sendo alegres e com batidas ligadas à danças como o Catira (dança onde se bate os pés e as mãos no ritmo da batida da viola), ou mesmo cânticos tristes, de lamento por um amor não correspondido ou pela morte de pessoas ou animais de estimação.
 
 
 
 
O Mestre Tião Carreiro, além de ser um dos maiores ícones da viola, é também criador de um dos estilos mais apreciados na música caipira: o "Pagode de Viola". Com seu primeiro pagode, chamado Pagode em Brasília, ele inovou o jeito de tocar viola com uma batida característica e com solos mais complexos. Outros nomes também são bastante influentes, tais como: Renato Andrade, Zé Coco do Riachão, Almir Sater, Mazinho Quevedo, Roberto Correia entre outros.
 
 
 Tião Carreiro
 
 
Hoje, a Viola Caipira é um instrumento acadêmico, tendo sido pesquisada e estudada por grandes músicos nacionais e internacionais e é responsável também pela manutenção e propagação da cultura e folclore brasileiro.
 
-JOÃO PAULO ARAÚJO

Bateria, Bateristas e Brasilidades (nº3)

Bem-vindos a mais uma matéria. Nesta edição seremos contemplados com a música e o swing de Djavan, um artista que fez de sua voz e de seu violão um passaporte para uma carreira repleta de discos, canções e melodias que se consolidaram e o consagraram como um grande cantor, músico e compositor da música brasileira, cuja obra também influenciaria milhares de músicos.
Após afirmar-se como autor e se destacar pela originalidade com seus três primeiros discos, em “Seduzir” (1981), o alagoano consolida a primeira fase da sua carreira e conquista a formação da sua primeira banda, “Sururu de Capote”.




Essa formação conta com Luiz Avellar (piano), Sizão Machado (baixo), Zé Nogueira (sopros) e com o baterista Téo Lima, dono de um vasto acervo de gravações (mais 5 mil faixas) com artistas dos mais variados gêneros e estilos musicais e de diversos países. Músico de carreira internacionalmente reconhecida, o também alagoano Téo Lima acompanhou artistas como Elis
Regina, Gal Costa, Gilberto Gil, Leny Andrade, Wilson Simonal, Baden Powell, Emílio Santiago entre muitos outros, e Ivan Lins, com quem trabalha até hoje gravando, produzindo e fazendo shows.




Separei alguns grooves de quatro (04) faixas do disco para podermos apreciar um pouco da obra deste grande baterista. Não deixe de ouvir cada faixa sugerida para acompanhar as transcrições e melhor analisar essas gravações. Aproveite a oportunidade para ouvir o disco inteiro. 

Começando por “Pedro Brasil” que marca o início do disco com uma linda introdução orquestrada e em seguida apresenta o swing e bom gosto de Djavan com sua nova banda. O primeiro compasso é uma passagem para o padrão que se estabelecerá com os compassos 2 e 3.




Para anunciar a repetição da parte “A” da música, temos uma frase que a banda executa onde a bateria acompanha dessa forma:




Agora vamos à faixa “Êxtase” da qual temos os quatro (04) primeiros compassos que envolvem o fill da introdução e o groove. Repare que a ideia do groove anterior (em “Pedro Brasil”) foi aproveitada. Porém, trata-se de um andamento diferente (mais rápido), o que transforma consideravelmente a intenção do groove.


 


Bom, se você reparou no toque de Samba Funk dentro do que vimos até agora, então em “Jogral” (parceria entre Djavan e Filó Machado) Téo Lima dá uma aula.
Introdução: 
(Obs: Ride, com acentos na cúpula)




Groove:


Variação:



Antes de finalizar com a próxima, repare no modo como a abertura de chimbal foi trabalhada nesses grooves como forma de dar uma quebrada nas semicolcheias e também trazer mais swing para o som.

No refrão de “Seduzir” (faixa que nomeia o álbum) temos essa levada. Escrevi em tercinas para facilitar a leitura e não trazer confusões, mas isso deve soar com intenção de 12/8. E aqui, mais uma vez, temos um trabalho de abertura de chimbal como elemento decisivo no resultado final.




Espero que tenham gostado deste material e deste assunto. Não deixem de conhecer e acompanhar os outros discos de Djavan e os diversos trabalhos do
baterista Téo Lima. É importante ressaltar que Djavan é um artistas de várias fases, também marcadas por grandes bateristas como Paulo Braga (do qual falamos na primeira matéria) e Carlos Bala, do qual desejo abordar numa futura matéria. Obrigado a todos que tem acompanhado estes estudos, até a próxima.
 
 
-GABRIEL MAROTTI
 
 

Ficha técnica do disco:
Direção de Produção: Renato Corrêa
Produção Executiva: Mayrton Bahia e Djavan
Assistentes de Produção: Monique Gardenberg e Paulo Albuquerque
Orquestrações e Regências: Luiz Avellar
Arranjos de Base: Djavan
Técnicos de Gravação: Guilherme Reis, Serginho e Franklin Garrido
Técnico de Mixagem: Franklin Garrido
Corte: Osmar Furtado
Layout/Capa: Noguchi
Fotos: Fernando Carvalho
Coordenação Gráfica: Tadeu Valério
Produtor Fonográfico: ©1981 EMI-Odeon Fonográfica, Industrial e Eletrônica S.A
Músicos (Banda Sururu de Capote): Violão: Djavan Piano: Luiz Avellar Baixo: Sizão Machado Bateria: Téo Lima Sopros: Zé Nogueira


Fontes:

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Bateria, Bateristas e Brasilidades (nº2)

Olá pessoal...

Nesta segunda matéria vamos falar de um álbum bastante curioso que com certeza acrescentou e ainda acrescenta muito na história da bateria brasileira.

Lançado pela gravadora Odeon em 1968, o disco “Elza Soares – baterista: Wilson das Neves” colocou no cenário musical do país, um baterista em posição de destaque junto à interprete dividindo igualmente: a capa do disco, o título do álbum e o espaço para suas respectivas performances musicais.

Em 1968, Das Neves fez turnê com Elza Soares por alguns países da América do Sul sendo o único músico brasileiro a viajar com a cantora na época (já que a banda era formada por músicos locais dos países onde aconteceriam os shows). Fascinada com a performance do baterista em uma de suas improvisações em um show na Argentina, Elza convence a gravadora a gravar e lançar um disco com essa parceria. Retornando ao Brasil ela então convida o músico para o trabalho que teria músicas de compositores como Lupicínio Rodrigues e Dorival Caymmi, arranjos do trombonista Nelsinho (Nelson Martins dos Santos) e o balanço do Samba Jazz e Bossa Nova.

 

Carioca, nascido em 1936, Wilson das Neves teve como primeiras influências a música de terreiro e iniciou sua carreira como baterista profissional nos anos 50. Integrou as orquestras de Permínio Gonçalves, TV Globo e TV Tupi, gravou um acervo de importantes discos para música brasileira e acompanhou mais de 600 artistas, entre eles Elizeth Cardoso, Sarah Vaughan, Elis Regina, Tom Jobim, Wilson Simonal e Chico Buarque, com quem trabalha há 30 anos. Em 1996 Das Neves lançou o disco “O Samba é Meu Dom” com músicas de sua autoria e em parcerias com Chico Buarque e Paulo Cesar Pinheiro se revelando também como cantor e compositor, sendo contemplado pelo prêmio “Sharp”. Seguiu gravando e lançando outros discos como cantor e faturando prêmios como de “melhor canção” e “melhor álbum de samba”. Também atuou como ator, em 2006, no filme “Noel, Poeta da Vila” (direção de Ricardo Van Steen).

 

Agora vamos conhecer um pouco mais profundamente alguns dos toques e peculiaridades, eternizados pelo mestre Wilson Das Neves neste disco, através de algumas transcrições que realizei referentes à algumas conduções, variações ou trechos de improvisação.

Mas primeiramente ressalto a importância de você ouvir atentamente o disco, que sem dúvida é a parte mais importante da nossa análise. Vamos lá!

Com destaque no disco, a música “Deixa isso pra lá” (Alberto Paz / Edson Menezes), segunda faixa do álbum, evidencia o virtuosismo e musicalidade da cantora e do baterista num histórico “diálogo” entre bateria e voz.

Primeiro, repare na introdução da música, realizada pela bateria:

 

Na condução durante a música, não é estabelecido um padrão definitivo na caixa. Mas escolhi uma das ideias que ele utiliza para registrar.

Obs: Toque a caixa no aro

 

Fiz questão de registrar dois trechos cruciais desta faixa (e do disco) onde a bateria se arrisca a tocar de forma mais melódica, como se fosse uma extensão da voz da Elza Soares. Confira:

Parte 01


Parte 02

 

Em “Edmundo” (4ª faixa) nota-se o detalhe do tom sendo incorporado à levada. Registrei duas conduções diferentes.

Obs: Toque a caixa no aro.

1ª – Condução no Ride

 

2ª – Condução em sincopa no chimbal, abrindo na segunda nota e fechando com o pé na nota seguinte (como mostra a abaixo) causando um efeito bastante interessante e swingado. Essa ideia de condução é encontrada também em outras faixas do disco.

 

E para encerrar, dois trechos de “Teleco-teco Nº 2” (composição do arranjador do disco), de andamento rápido. Também recomendável tocar aro.

 
 

Por hoje é isso pessoal. Espero que tenham gostado, e mês que vem tem mais. E pra quem ainda não viu a matéria anterior, não deixe de dar uma conferida. Muita música a todos!

-GABRIEL MAROTTI
 
 
Informações adicionais sobre o disco:

1968
Odeon
MOFB 3521

Faixas:

1- Balanço zona sul
(Tito Madi)

2- Deixa isso pra lá
(Édson Menezes, 
Alberto Paz)

3- Garota de Ipanema
(Tom Jobim, 
Vinicius de Moraes)

4- Edmundo [In the mood]
(
J.Garland, A.Razaf)


6- Copacabana
(Alberto Ribeiro, 
João de Barro)

7- Teleco teco nº 2
(Oldemar Magalhães, 
Nelsinho)

8- Saudade da Bahia
(Dorival Caymmi)

9- Samba de verão
(Paulo Sergio Valle, 
Marcos Valle)

10- Se acaso você chegasse
(Felisberto Martins, 
Lupicínio Rodrigues)

11- Mulata assanhada
(Ataulfo Alves)

12- Palhaçada
(
Luiz Reis, Haroldo Barbosa)

Arranjos: Nelson Martins dos Santos

 

FONTES: