segunda-feira, 25 de abril de 2016

Bateria, Bateristas e Brasilidades (nº2)

Olá pessoal...

Nesta segunda matéria vamos falar de um álbum bastante curioso que com certeza acrescentou e ainda acrescenta muito na história da bateria brasileira.

Lançado pela gravadora Odeon em 1968, o disco “Elza Soares – baterista: Wilson das Neves” colocou no cenário musical do país, um baterista em posição de destaque junto à interprete dividindo igualmente: a capa do disco, o título do álbum e o espaço para suas respectivas performances musicais.

Em 1968, Das Neves fez turnê com Elza Soares por alguns países da América do Sul sendo o único músico brasileiro a viajar com a cantora na época (já que a banda era formada por músicos locais dos países onde aconteceriam os shows). Fascinada com a performance do baterista em uma de suas improvisações em um show na Argentina, Elza convence a gravadora a gravar e lançar um disco com essa parceria. Retornando ao Brasil ela então convida o músico para o trabalho que teria músicas de compositores como Lupicínio Rodrigues e Dorival Caymmi, arranjos do trombonista Nelsinho (Nelson Martins dos Santos) e o balanço do Samba Jazz e Bossa Nova.

 

Carioca, nascido em 1936, Wilson das Neves teve como primeiras influências a música de terreiro e iniciou sua carreira como baterista profissional nos anos 50. Integrou as orquestras de Permínio Gonçalves, TV Globo e TV Tupi, gravou um acervo de importantes discos para música brasileira e acompanhou mais de 600 artistas, entre eles Elizeth Cardoso, Sarah Vaughan, Elis Regina, Tom Jobim, Wilson Simonal e Chico Buarque, com quem trabalha há 30 anos. Em 1996 Das Neves lançou o disco “O Samba é Meu Dom” com músicas de sua autoria e em parcerias com Chico Buarque e Paulo Cesar Pinheiro se revelando também como cantor e compositor, sendo contemplado pelo prêmio “Sharp”. Seguiu gravando e lançando outros discos como cantor e faturando prêmios como de “melhor canção” e “melhor álbum de samba”. Também atuou como ator, em 2006, no filme “Noel, Poeta da Vila” (direção de Ricardo Van Steen).

 

Agora vamos conhecer um pouco mais profundamente alguns dos toques e peculiaridades, eternizados pelo mestre Wilson Das Neves neste disco, através de algumas transcrições que realizei referentes à algumas conduções, variações ou trechos de improvisação.

Mas primeiramente ressalto a importância de você ouvir atentamente o disco, que sem dúvida é a parte mais importante da nossa análise. Vamos lá!

Com destaque no disco, a música “Deixa isso pra lá” (Alberto Paz / Edson Menezes), segunda faixa do álbum, evidencia o virtuosismo e musicalidade da cantora e do baterista num histórico “diálogo” entre bateria e voz.

Primeiro, repare na introdução da música, realizada pela bateria:

 

Na condução durante a música, não é estabelecido um padrão definitivo na caixa. Mas escolhi uma das ideias que ele utiliza para registrar.

Obs: Toque a caixa no aro

 

Fiz questão de registrar dois trechos cruciais desta faixa (e do disco) onde a bateria se arrisca a tocar de forma mais melódica, como se fosse uma extensão da voz da Elza Soares. Confira:

Parte 01


Parte 02

 

Em “Edmundo” (4ª faixa) nota-se o detalhe do tom sendo incorporado à levada. Registrei duas conduções diferentes.

Obs: Toque a caixa no aro.

1ª – Condução no Ride

 

2ª – Condução em sincopa no chimbal, abrindo na segunda nota e fechando com o pé na nota seguinte (como mostra a abaixo) causando um efeito bastante interessante e swingado. Essa ideia de condução é encontrada também em outras faixas do disco.

 

E para encerrar, dois trechos de “Teleco-teco Nº 2” (composição do arranjador do disco), de andamento rápido. Também recomendável tocar aro.

 
 

Por hoje é isso pessoal. Espero que tenham gostado, e mês que vem tem mais. E pra quem ainda não viu a matéria anterior, não deixe de dar uma conferida. Muita música a todos!

-GABRIEL MAROTTI
 
 
Informações adicionais sobre o disco:

1968
Odeon
MOFB 3521

Faixas:

1- Balanço zona sul
(Tito Madi)

2- Deixa isso pra lá
(Édson Menezes, 
Alberto Paz)

3- Garota de Ipanema
(Tom Jobim, 
Vinicius de Moraes)

4- Edmundo [In the mood]
(
J.Garland, A.Razaf)


6- Copacabana
(Alberto Ribeiro, 
João de Barro)

7- Teleco teco nº 2
(Oldemar Magalhães, 
Nelsinho)

8- Saudade da Bahia
(Dorival Caymmi)

9- Samba de verão
(Paulo Sergio Valle, 
Marcos Valle)

10- Se acaso você chegasse
(Felisberto Martins, 
Lupicínio Rodrigues)

11- Mulata assanhada
(Ataulfo Alves)

12- Palhaçada
(
Luiz Reis, Haroldo Barbosa)

Arranjos: Nelson Martins dos Santos

 

FONTES:




 

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